A matemática nos anos iniciais do ensino fundamental: relações entre professor, aluno e saber matemático (20/03/2021)
APRENDER E ENSINAR
MATEMÁTICA NO ENSINO FUNDAMENTAL
O estudo dos fenômenos relacionados
ao ensino e à aprendizagem da Matemática pressupõe a análise de variáveis
envolvidas nesse processo — aluno, professor e saber matemático —, assim como
das relações entre elas. Numa reflexão sobre o ensino da Matemática é de
fundamental importância ao professor:
• identificar as principais
características dessa ciência, de seus métodos, de suas ramificações e
aplicações;
• conhecer a história de vida dos
alunos, sua vivência de aprendizagens fundamentais, seus conhecimentos
informais sobre um dado assunto, suas condições sociológicas, psicológicas e
culturais;
• ter clareza de suas próprias
concepções sobre a Matemática, uma vez que a prática em sala de aula, as
escolhas pedagógicas, a definição de objetivos e conteúdos de ensino e as
formas de avaliação estão intimamente ligadas a essas concepções.
O aluno e o saber matemático
As necessidades cotidianas fazem com
que os alunos desenvolvam uma inteligência essencialmente prática, que permite
reconhecer problemas, buscar e selecionar informações, tomar decisões e,
portanto, desenvolver uma ampla capacidade para lidar com a atividade
matemática. Quando essa capacidade é potencializada pela escola, a aprendizagem
apresenta melhor resultado. No entanto, apesar dessa evidência, tem-se buscado,
sem sucesso, uma aprendizagem em Matemática pelo caminho da reprodução de
procedimentos e da acumulação de informações; nem mesmo a exploração de
materiais didáticos tem contribuído para uma aprendizagem mais eficaz, por ser
realizada em contextos pouco significativos e de forma muitas vezes artificial.
É fundamental não subestimar a capacidade dos alunos, reconhecendo que resolvem
problemas, mesmo que razoavelmente complexos, lançando mão de seus
conhecimentos sobre o assunto e buscando estabelecer relações entre o já
conhecido e o novo. O significado da atividade matemática para o aluno também
resulta das conexões que ele estabelece entre ela e as demais disciplinas,
entre ela e seu cotidiano e das conexões que ele percebe entre os diferentes
temas matemáticos. Ao relacionar ideias matemáticas entre si, podem reconhecer
princípios gerais, como proporcionalidade, igualdade, composição e inclusão e
perceber que processos como o estabelecimento de analogias, indução e dedução
estão presentes tanto no trabalho com números e operações como em espaço, forma
e medidas. O estabelecimento de relações é tão importante quanto a exploração
dos conteúdos matemáticos, pois, abordados de forma isolada, os conteúdos podem
acabar representando muito pouco para a formação do aluno, particularmente para
a formação da cidadania.
O professor e o saber matemático
O conhecimento da história dos
conceitos matemáticos precisa fazer parte da formação dos professores para que
tenham elementos que lhes permitam mostrar aos alunos a Matemática como ciência
que não trata de verdades eternas, infalíveis e imutáveis, mas como ciência
dinâmica, sempre aberta à incorporação de novos conhecimentos. Além disso,
conhecer os obstáculos envolvidos no processo de construção de conceitos é de
grande utilidade para que o professor compreenda melhor alguns aspectos da
aprendizagem dos alunos. O conhecimento matemático formalizado precisa,
necessariamente, ser transformado para se tornar passível de ser
ensinado/aprendido; ou seja, a obra e o pensamento do matemático teórico não
são passíveis de comunicação direta aos alunos. Essa consideração implica rever
a ideia, que persiste na escola, de ver nos objetos de ensino cópias fiéis dos
objetos da ciência. Esse processo de transformação do saber científico em saber
escolar não passa apenas por mudanças de natureza epistemológica, mas é
influenciado por condições de ordem social e cultural que resultam na
elaboração de saberes intermediários, como aproximações provisórias,
necessárias e intelectualmente formadoras. É o que se pode chamar de
contextualização do saber. Por outro lado, um conhecimento só é pleno se for
mobilizado em situações diferentes daquelas que serviram para lhe dar origem.
Para que sejam transferíveis a novas situações e generalizados, os
conhecimentos devem ser descontextualizados, para serem contextualizados
novamente em outras situações. Mesmo no ensino fundamental, espera-se que o
conhecimento aprendido não fique indissoluvelmente vinculado a um contexto
concreto e único, mas que possa ser generalizado, transferido a outros
contextos.
As relações professor-aluno e
aluno-aluno
Tradicionalmente, a prática mais frequente
no ensino de Matemática era aquela em que o professor apresentava o conteúdo
oralmente, partindo de definições, exemplos, demonstração de propriedades,
seguidos de exercícios de aprendizagem, fixação e aplicação, e pressupunha que
o aluno aprendia pela reprodução. Considerava-se que uma reprodução correta era
evidência de que ocorrera a aprendizagem. Essa prática de ensino mostrou-se
ineficaz, pois a reprodução correta poderia ser apenas uma simples indicação de
que o aluno aprendeu a reproduzir, mas não apreendeu o conteúdo. É
relativamente recente, na história da Didática, a atenção ao fato de que o
aluno é agente da construção do seu conhecimento, pelas conexões que estabelece
com seu conhecimento prévio num contexto de resolução de problemas.
Naturalmente, à medida que se redefine o papel do aluno perante o saber, é
preciso redimensionar também o papel do professor que ensina Matemática no
ensino fundamental. Numa perspectiva de trabalho em que se considere a criança
como protagonista da construção de sua aprendizagem, o papel do professor ganha
novas dimensões. Uma faceta desse papel é a de organizador da aprendizagem;
para desempenhá-la, além de conhecer as condições socioculturais, expectativas
e competência cognitiva dos alunos, precisará escolher o(s) problema(s) que
possibilita(m) a construção de conceitos/procedimentos e alimentar o processo
de resolução, sempre tendo em vista os objetivos a que se propõe atingir. Além
de organizador, o professor também é consultor nesse processo. Não mais aquele
que expõe todo o conteúdo aos alunos, mas aquele que fornece as informações
necessárias, que o aluno não tem condições de obter sozinho. Nessa função, faz
explanações, oferece materiais, textos, etc. Outra de suas funções é como
mediador, ao promover a confrontação das propostas dos alunos, ao disciplinar
as condições em que cada aluno pode intervir para expor sua solução,
questionar, contestar. Nesse papel, o professor é responsável por arrolar os
procedimentos empregados e as diferenças encontradas, promover o debate sobre
resultados e métodos, orientar as reformulações e valorizar as soluções mais
adequadas. Ele também decide se é necessário prosseguir o trabalho de pesquisa
de um dado tema ou se é o momento de elaborar uma síntese, em função das
expectativas de aprendizagem previamente estabelecidas em seu planejamento.
Atua como controlador ao estabelecer as condições para a realização das
atividades e fixar prazos, sem esquecer de dar o tempo necessário aos alunos.
Como um incentivador da aprendizagem, o professor estimula a cooperação entre
os alunos, tão importante quanto a própria interação adulto/criança. A
confrontação daquilo que cada criança pensa com o que pensam seus colegas, seu
professor e demais pessoas com quem convive é uma forma de aprendizagem
significativa, principalmente por pressupor a necessidade de formulação de
argumentos (dizendo, descrevendo, expressando) e a de comprová-los
(convencendo, questionando). Além da interação entre professor e aluno, a
interação entre alunos desempenha papel fundamental na formação das capacidades
cognitivas e afetivas. Em geral, explora-se mais o aspecto afetivo dessas
interações e menos sua potencialidade em termos de construção de conhecimento.
Trabalhar coletivamente, por sua vez, supõe uma série de aprendizagens, como:
• perceber que além de buscar a
solução para uma situação proposta devem cooperar para resolvê-la e chegar a um
consenso;
• saber explicitar o próprio
pensamento e tentar compreender o pensamento do outro;
• discutir as dúvidas, assumir que as
soluções dos outros fazem sentido e persistir na tentativa de construir suas
próprias ideias;
• incorporar soluções alternativas,
reestruturar e ampliar a compreensão acerca dos conceitos envolvidos nas
situações e, desse modo, aprender.
Essas aprendizagens só serão
possíveis na medida em que o professor proporcionar um ambiente de trabalho que
estimule o aluno a criar, comparar, discutir, rever, perguntar e ampliar ideias.
É importante atentar para o fato de que as interações que ocorrem na sala de
aula — entre professor e aluno ou entre alunos — devem ser regulamentadas por
um “contrato didático” no qual, para cada uma das partes, sejam explicitados
claramente seu papel e suas responsabilidades diante do outro.

Com a leitura do texto, fica ainda mais claro que nós professores não devemos invalidar os conhecimentos prévios dos nossos alunos pois esses mesmos conhecimentos são de suma importância para o desenvolvimento e a aprendizagem de nossas crianças e que nosso cotidiano também nos ajuda na "formação" do entendimento e desenvolvimento dos conceitos matemáticos seja para resolver e reconhecer problemas, buscar ou solucionar informações, tomar decisões, estabelecendo conexões entre diferentes temas matemáticos...
ResponderExcluirO estreitamento da relação aluno/professor quanto para a exploração de conteúdos matemáticos é importante, pois o método conteudista onde somente o professor é o detentor do conhecimento acaba afastando os alunos e tornando os conteúdos menos importantes/representativos para a formação do educando.